O alarmante risco no abuso dos remédios tarja preta

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É dever do médico cuidar de seus pacientes, manter a população corretamente informada sobre prevenção de doenças e uso adequado de medicamentos.

Ao completar 30 anos de exercício da medicina, vejo cada vez mais pacientes usando uma quantidade significativa de medicamentos controlados, ou seja, de tarja preta.

Isso realmente me assusta, não só pelo uso indiscriminado, como também pela dependência que esses medicamentos causam.

Dados assustadores

O campeão absoluto de prescrições é o famoso Rivotril – clonazepam –, um medicamento utilizado como ansiolítico ou genericamente conhecido como “calmante”.

A venda desse tranquilizante aumenta em alta escala a cada ano, sendo que, de 2009 a 2013, o número de caixas vendidas passou de 12 milhões para 17 milhões – um aumento de 42%.

Os números são assustadores. E o mais interessante é que, cada vez mais, esse medicamento é prescrito por clínicos gerais e médicos de outras especialidades que não a psiquiatria. Acreditem ou não, os psiquiatras estão prescrevendo menos ansiolíticos que prescreviam há dez anos.

Segundo os psiquiatras, existe um abuso na indicação desse medicamento, já que ele traz resultados rápidos.

Pacientes que chegam ao consultório com queixas de ansiedade porque trabalham muitas horas e quando chegam em casa querem dormir imediatamente são os principais usuários do Rivotril.

São pessoas estressadas com a rotina do trabalho, que querem instantaneamente entrar em estado de relaxamento.

Contudo, esse medicamento pode trazer efeitos colaterais indesejáveis como sonolência, dificuldade de concentração e falhas de memória.

Médicos mal preparados

Há falta de preparo dos médicos generalistas para reconhecer outras patologias psiquiátricas que são desencadeadas pelo estresse.

Além da sensação imediata de relaxamento, o Rivotril causa dependência – bastam três meses de uso para o paciente desenvolver dependência química –, e com ela as crises de abstinência, que fazem mais difícil o processo de “desmame” da pílula.

É importante ressaltar que a real indicação para o Rivotril é para tratamento de transtornos de ansiedade ou sinais de síndromes psicóticas, como delírios e confusão mental. Mas, como a fama do medicamento é grande, ele passou a ser usado para combater simples casos de ansiedade.

Enquanto no Brasil as vendas e o consumo disparam, na Inglaterra e Alemanha o comércio caiu 30% na última década. A falta de controle da venda no Brasil e a automedicação (rotina comum entre os brasileiros) contribuem para que nosso país esteja na contramão de mais um indicador de desenvolvimento.

Conselhos

Mas como evitar o uso do medicamento? Primeiro, reconhecendo as causas de estresse/ansiedade e implementando estratégias que as minimizem. Incluir exercícios físicos entre as atividades diárias, bem como atividades sociais em grupo, podem funcionar como ferramentas para liberar o estresse.

Outra maneira de lidar com esses problemas é seguir uma dieta mais adequada, com alimentos que sejam ricos em triptofano, taurina, glutamina, além dos famosos chás do tempo das nossas avós. Mas isso é assunto para outro artigo…

Por hora, reavalie a necessidade de usar medicação controlada – respeite seu organismo. Harmonia é primordial!

Lilian Alevato é médica especializada em cardiologia, medicina interna e administração em saúde.
A carioca trabalha há 15 anos na área de Managed Care, Compliance e Qualidade, tendo desenvolvido inúmeros projetos relacionados ao gerenciamento de cuidados a pacientes em estado crônico