O Brasil conquista e vence na América: Doutora Lilian Alevato conta sua trajetória

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Trazemos uma de nossas colunistas para ser homenageada no Face do mês, Lílian Alevato, que hoje está no controle de uma das maiores instituições de saúde dos Estados Unidos.

Facebrasil – O que fez uma médica de sucesso se aventurar na América como imigrante?

Lílian Alevato – Quatro anos antes de me transferir para Orlando, comecei a estudar administração em saúde. Quando concluí o MBA na Coppead da Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Johns Hopkins University, cheguei à conclusão de que o sistema de saúde brasileiro não se encaixava com o meu modelo ideal e que muitas mudanças seriam necessárias para que se aproximasse do sistema americano, no qual a informação é ferramenta fundamental para seu funcionamento. Eu me apaixonei pelo sistema e por sua transparência, assim, juntei minhas coisas e vim aprender.

FB – Então você resolveu sair do Brasil em busca de conhecimento?

LA – Sim. O destino contribuiu para isso, já que, em 2000, recebi dois convites para palestras, um seminário em saúde em Miami que estudava a possibilidade dos planos de saúde americanos serem implantados no Brasil – fato que aconteceria posteriormente com a compra de planos de saúde por companhias americanas – e outro evento no Banco Mundial, em Washington. Nesse ano, tive meu primeiro contato com a empresa que controla qualidade aqui nos EUA e vi que qualidade seria minha “superespecialidade”.

FB – Qual foi o tema de sua palestra em Washington?

LA – Bem, quando eu fiz minha palestra no Banco Mundial, falei sobre o financiamento do sistema púbico de saúde. Eu estava no topo da administração em saúde no Brasil, mas tomei consciência de todas as barreiras que teria de enfrentar para implementação de um sistema que eu considerasse justo. Após comparar com o sistema americano, resolvi que teria mais satisfação profissional por aqui. Quando retornei para Orlando, pensei: com nossa casa aqui desde 1996, tenho minha base já formada, quero continuar por aqui e trabalhar naquilo em que acredito. Assim, resolvi ficar, e lá se vão quase 15 anos…

FB – Como é trabalhar nos Estados Unidos?

LA – Muito gratificante. Tudo e superorganizado. Os objetivos são claros, trabalhamos com dados em tempo real e os resultados são constantemente monitorados e reavaliados. Se algo não dá certo, analisamos a causa e deflagramos uma nova estratégia. Em saúde, a cada dia temos uma informação nova, e isso é extremamente estimulante. Meu trabalho é baseado em constante aprimoramento de processos visando a melhoria da saúde da população em geral.

FB – O que você acredita que deveria ser modificado no Brasil para a saúde dar certo?

LA – Somente transparência e a vontade de que dê certo.

FB – Qual a importância da telemedicina hoje?

LA – Hoje sem ela ficaria muito mais difícil fazer e praticar medicina. Investem-se milhões em tecnologia e informação, além de equipamentos, medicamentos e suprimentos que são entregues nas casas de nossos pacientes. Tudo isso para evitar que o paciente seja internado e aumente o custo do sistema de saúde como um todo, da forma que o presidente Obama quer. Prevenção é a palavra-chave.

FB – Falando nele, como está a famosa reforma de saúde de Obama?

LA – Transparência é o que o governo quer e precisa. O presidente quer que todos tenham acesso a saúde – incluindo a faixa de trabalhadores informais, que sofrem mais com a falta de plano de saúde. Com a criação dos planos chamados “ObamaCare”, todos têm acesso a plano de saúde e plano dental – foi uma grande conquista para o povo americano que não tinha condições de pagar um plano comercial poucos anos atrás.

FB – Qual a sua visão do sistema de saúde quanto ao atendimento ao paciente? O que aqui é melhor do que no Brasil?

LA – Existem bons profissionais aqui e lá. Lá os médicos são mais próximos, aqui são mais defensivos. Mas a vantagem é que aqui eles fazem tudo pelo protocolo – a chamada medicina baseada em evidência; no Brasil ainda encontramos os “achistas”, que não estudam e praticam medicina como curandeiros… mas isso é uma outra história.

FB – Esse seu lado zeloso, meticuloso e executivo também funciona em casa, com seus filhos?

LA – Como executiva que sou, tenho meus mecanismos de controle. Funciono exatamente igual aqui, não preciso saber exatamente o que está acontecendo; observo os sinais, as evidências, primeiro o comportamento, e os resultados,
as notas, os programas. Quando meus filhos eram adolescentes, ajudava a fazer dever de casa, participava muito da vida acadêmica, mas sempre dando a independência na dose certa. Não poderia fazer o curso por eles, mas sempre vibrava com as vitórias e apoiava quando as coisas não transcorriam da melhor maneira. De uma forma geral, eles se acostumaram a conviver com a mãe médica e executiva, já nasceram nesse cenário, e foi fácil para eles e para o marido. A melhor parte do processo é que me mantive atualizada com as mudanças tecnológicas, e isso fez com que os meninos me admirassem bastante.

FB – Você fala com seus filhos por MMS, mensagem de texto?

LA – Prefiro. É a forma mais fácil e certamente a ideal, já que tenho reuniões durante todo o dia e muitas vezes à noite, mas pelo menos uma vez ao dia nos falamos – o diálogo é essencial.

FB – Então você estabelece objetivos para seus filhos?

LA – Sempre! Nós temos que ter objetivos na vida, já que são eles a motivação para seguir em frente. Fui criada com objetivos claros e metas definidas. Minha mãe buscava a excelência em tudo, e acho que isso acabou me direcionando para qualidade. Profissional e executiva à parte, toda mãe quer que seus filhos sejam os melhores em tudo e que alcancem seus sonhos. Cabe aos pais ser competentes na forma de orientar e contribuir para que tudo aconteça. Acho que cumpri bem a missão de mãe – filhos formados e bem encaminhados.

FB – Como os meninos, seus filhos, veem essa política?

LA – Acredito que o verdadeiro segredo seja gerar os objetivos sem o estresse, mostrar que nada é impossível e que uma coisa é consequência da outra. Quando damos um passo errado, não significa que não podemos corrigir a rota – é só reajustar e voltar para o caminho correto. Problemas sempre acontecem. Eu passei por tantas coisas que até daria uma novela, mas sempre acreditei que haveria um dia melhor, e sempre foi assim; no final da tempestade, o sol sempre brilhou – e muito forte!

FB – Como você aplica isso na vida prática?

LA – Existe uma teoria em que eu creio segundo a qual mandamos “vibrações” para o universo e ele devolve o que desejamos em todos os sentidos, mas o problema é como você carrega essa vibração/emoção ou a sua expectativa. Minha carreira nos EUA começou como gerente médica em outra empresa. Há dez anos, eu começaria a trabalhar numa das áreas mais especializadas e difíceis da saúde – o famoso Managed Care, com total risco. Me encontrei nessa área, na qual aprendi muito e tive que fazer mais cursos de especialização para me manter no mercado de forma competitiva. Hoje, depois de quase 15 anos trabalhando nesse país, cheguei à posição que eu tinha em meus sonhos. Nunca deixei de acreditar, mas adicionei a meus sonhos muito estudo e dedicação – e achei a receita certa.

FB – O mundo é machista, mas você, mulher, imigrante brasileira, se vê na sua posição?

LA – Isso foi uma prova divina de humildade. Uma prática diária de fé e dedicação à profissão. Nesses 15 anos, desenvolvi muitos projetos de qualidade e passei a ser respeitada no meu campo profissional, além de obviamente conhecida. Hoje trabalho numa empresa para a qual fui convidada, em vez de me candidatar a ela. No último ano, passei de diretora de qualidade para vice-presidente, e no início deste ano cheguei ao cargo mais alto da companhia – Chief Quality Officer. É muito interessante ser a única mulher executiva da chamada C-Suite da companhia, e ao mesmo tempo bastante desafiante, já que tenho de mostrar que sou competente para ocupar o cargo que me foi delegado. Foi uma aventura e tanto, com muitos prêmios, inclusive a Medalha Ronald Reagan, em 2004, e muitos títulos, que hoje demonstro na minha assinatura profissional.

FB – Qual para você é a grande prova para o imigrante?
LA – Saber que aqui o que se valoriza é o trabalho, e não o status. O filho de um médico pode trabalhar em qualquer emprego que isso não o desqualifica; no Brasil, isso não é visto com bons olhos. Enquanto o imigrante não entender
que tem de aprender, ele sofre querendo fazer da forma que fazia lá no Brasil.
FB – Quais os planos para o futuro? Aonde você ainda quer chegar?

LA – Mais importante que o sucesso, quero ter o reconhecimento pelo meu trabalho. Já escrevi meu nome na história de várias empresas aqui nos EUA. Fui responsável por vários processos de transformação em qualidade, e é muito gratificante ver seu trabalho dar frutos e mudar o comportamento de muitos médicos. Atualmente sou convidada para apresentar várias conferências durante o ano, e isso é reconhecimento do meu trabalho. Quero ver minha empresa bem-sucedida e promovendo saúde de excelente qualidade para meus pacientes – esse é meu objetivo.

FB – Você pensa em se aposentar?

LA – Médico nunca se aposenta. Não deixamos o cérebro em casa. Sempre teremos o pensamento do diagnóstico e cura. Não me vejo aposentada, mas sim com um ritmo de trabalho mais leve – trabalhando apenas em algumas consultorias, mas não sei precisar quando seria hora de diminuir meu ritmo…

FB – Onde Deus entra nessa história?

LA – A cada minuto, trabalho para Deus – acredito que a minha profissão é uma missão, um compromisso com meus pacientes. Sem Ele, meu trabalho não funciona, já que testemunho milagres a cada dia, a cada caso que dou como profissional. Deus sempre me guiou e continuará guiando minha vida pessoal e profissional – essa é a receita do meu sucesso. Quem não tem fé não caminha na luz.