O homem perfeito pra você não é aquele que você está procurando

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A gente nem se dá conta, mas acaba construindo o homem ideal. O meu devia ter pele bronzeada de quem ama sol e praia, nem tão alto que me deixasse na ponta dos pés, nem tão baixo que me constrangesse subir no salto. Uns quatro anos mais velho.

Devia ser extrovertido a ponto de magnetizar desconhecidos e me beijar de língua em público. Precisava ser um cara social, desses que amam bares e festinhas e conhecer gente nova. Que fosse dado a improvisos, a planos de última hora, a impulsos, a visceralidades. Ah, gostar de cinema alternativo e música brasileira eram quesitos fundamentais. Um “quê” de bad boy seria “delicinha”.

Todos com camiseta polo, sapato social e apego por carros estavam eliminados. E seria incrível se ele me tomasse por sua mulher com algum ciúme – o que eu entendia como prova de amor.

Durante anos, tentei conquistar os homens que seguiam esse briefing. Claro que me envolvi com pessoas bem diferentes disso, mas “sabia” que não ia dar em nada. Eu queria encontrar o homem perfeito pra mim. Daí encontrei, me apaixonei com o coração e as tripas. Namoramos por intensos dois anos. Quando o relacionamento terminou, eu simplesmente não conseguia entender.

Ele tinha todas as características dos meus sonhos… E, porque a gente é teimosa e acredita saber o melhor para si, eu continuei quebrando a fuça.

Quando entrei na faculdade, um colega de sala se tornou um bom amigo. Era mestiço, tinha olhos puxados, pele branca feito açúcar, vestia-se como playboy, tão novo quanto eu. Tímido e certinho, desses criados pela avó, exibia a educação de um lord. Felipe namorava sério, eu queria saber de micareta e brigadeiro de maconha. Embora me sentisse atraída por ele, confesso que não imaginava sequer que poderíamos namorar um dia.

Coisa de um mês depois, o japa ficou solteiro. Avisei um amigo em comum que eu super daria uns beijinhos nele. A balada foi marcada. O homem perfeito pra mim, me pegaria pela cintura e me roubaria uma chupada cinematográfica. Felipe demorou quatro horas e me PEDIU um beijo. Que, aliás, não encaixou. “Parabéns, garota, era óbvio que vocês não combinavam”, foi tudo o que pensei.

Nove anos se passaram. Desde então, não nos largamos mais. Moramos sob o mesmo teto há 3 e meio, oficialmente casados nos últimos dois. Isso não significa que seremos “felizes pra sempre” ou que só a morte poderá nos separar. A vida tende a ser mais cruel que os contos de fadas.

Mas Felipe me provou que o homem perfeito pra mim não-foi-não-é-nunca-será aquele que eu procurava. Quando eu me abri para o novo, entendi que eu precisava de alguém absolutamente diferente daquilo. Alguém que atenuasse a minha ânsia por extremos, que respeitasse os meus espaços, que respondesse aos meus gritos descontrolados com uma voz doce. Uma pessoa paciente para compartilhar os meus dilemas mais banais.

Um cara responsável e planejado para frear as minhas ansiedades. Um parceiro capaz de me decifrar no silêncio e me desarmar com uma piadinha imbecil.

Um ser imperfeito como eu, para me livrar da obrigação impossível de ser perfeita. Nada disso era prioridade pra mim, talvez porque ninguém tivesse me mostrado isso antes. Aquele homem que eu ACHAVA perfeito pra mim seria incapaz de agregar tanto.

Nathalia Ziemkiewicz é jornalista e autora do blog napimentaria.com.br
Aposta que informação pode ser mais transmissível que muita doença.