Um dos principais fatos do ano que começa é o início do mandato do presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump. Desde que chamou para si os holofotes da mídia, com propostas consideradas politicamente incorretas, os veículos de imprensa passaram a ser pautados por esse comportamento.

Diferentemente de Barack Obama, quando candidato, que em sua primeira disputa para presidente foi eleito utilizando de forma estruturada as mídias sociais e o “big data”, Trump chegou ao poder ignorando todas as regras do moderno marketing eleitoral.

Trump, que é também um homem de mídia, entendeu rapidamente que hoje, quando o universo da comunicação é amplamente dominado pelas redes sociais, o importante é gerar notícia. Mais do que isso, o importante é dividir. Essa estratégia gera rejeição, mas também cria uma massa de apoiadores fiéis, com olhos e ouvidos cansados do politicamente correto.

No quadro político do Brasil recente, essa receita também teve sua vez. Basta lembrar o apelo popular de frases como o “nós contra eles”, utilizada para inflamar eleitores e seguidores fiéis dispostos a tudo.

Previsões são um campo minado. Em política e economia, chega a ser atividade com alto grau de periculosidade. Mas é importante avaliar os fatos e as narrativas antes de replicar e compartilhar sem muita reflexão teorias alarmistas pouco embasadas. Vamos aos fatos e comparativos históricos que sinalizam por que o governo Trump pode não destoar tanto do de seus antecessores.

Nos Estados Unidos, existem instituições fortes e consolidadas que atuam em conjunto e servem como limitadores de poder. O Congresso, formado pela Câmara dos

Representantes e pelo Senado, atua nesse sentido. O partido de Trump garantiu a maioria nas duas casas, mas isso não significa que os parlamentares republicanos e seus financiadores de campanha concordem com medidas antiglobalização. Além disso, os republicanos saíram ao fim do governo Bush com o peso da crise de 2008 nas costas.

Agora, de volta ao poder, precisam se reinventar perante o eleitorado e a opinião pública se planejam seguir comandando o país por um período superior a quatro anos.

Tendo esse cenário como base, uma coisa é praticamente certa: os interesses econômicos dos Estados Unidos devem ditar os trabalhos do Congresso. Propostas muito profundas sobre comércio internacional podem desagradar parte dos parlamentares e rachar o Partido Republicano.

No tocante à economia interna, a tônica deve ser menos impostos. Trump planeja reduzir tributos como nenhum outro presidente fez desde que o também republicano Ronald Reagan comandou o país, de 1981 a 1989.

A proposta é implementar cortes na carga tributária de maneira generalizada, mas com foco nas famílias com renda média.

Outro tema de muita polêmica é a questão imigratória.

Mas é preciso frisar que uma coisa é a retórica do processo eleitoral, outra é o exercício diário de governo. Trump já declarou foco nos imigrantes com antecedentes criminais, contingente que poderia atingir até 3 milhões de pessoas.

Mas os custos envolvidos numa operação desse porte podem atingir cifras altíssimas, inviabilizando outros projetos em um país que estuda, de forma simultânea, cortar impostos para estimular a economia e gerar empregos. A conta não fecha.
Existem nos Estados Unidos, de acordo com algumas projeções, cerca de 11,3 milhões de imigrantes sem documentos. Identificá-los, prendê-los e deportá-los seria um processo sob o ponto de vista financeiro e logístico desafiador.

Um estudo de 2015 do American Action Forum (AAF), divulgado pela BBC, destaca que um programa de deportação em massa demoraria duas décadas para localizar e repatriar imigrantes ilegais. O custo da operação, numa projeção conservadora, seria de pelo menos US$ 114 bilhões, podendo atingir até US$ 620 bilhões.

Existe outro custo associado a esse tema. Os imigrantes ilegais representam cerca de 6,4% da força de trabalho dos EUA. Uma deportação em massa poderia gerar uma retração da economia. Um custo complicado de bancar em um país que acabou de se recuperar de uma profunda crise. Além disso, graças à imigração os EUA podem ser um dos únicos – se não o único – grandes países desenvolvidos que não serão afetados por um declínio demográfico nas próximas décadas.

O robusto histórico das instituições americanas já mostrou diversas vezes que tem poder para ajustar expectativas e limitar excessos. Trump também já tem conhecimento de que treino é treino, jogo é jogo e de que ninguém governa sem uma base política e institucional forte. A vitória nas eleições garante algum capital político para iniciar sua trajetória na Casa Branca, mas não significa um cartão de crédito sem limite e sem prazo para expirar.

Por Ilton Caldeira